Batismo de Jesus
Jesus nasceu no sertão, na clareira de uma grota mais alta, antes da serra ganhar altura e escalar em paredes verticais de pedra. Por entre as perobas, embaúbas, guapuruvus e jequitibás, veio ao mundo numa manjedoura improvisada de taboa: dura para um bebê, macia para um caboclo. Mais distante, como um ferreiro que bate na bigorna de metal, uma araponga entoou três gritos equidistantes que ecoaram na floresta. Talvez tentasse dizer algo como “Gaspar, Belchior, Baltasar”.
Desde menino, brincava neste rio com seu primo João, seis meses mais velho. Corriam por toda a margem e navegavam juntos em uma canoinha de cedro escavado, afinal, tinha guardado consigo um enxó de seu pai, o carpinteiro José. De Maria, sua mãe, carregava apenas um manto de algodão, claro como sua pele, menos exposta e mais reclusa.
No dia de seu batismo, portanto, desceram a encosta margeando o rio até sua foz, onde o ribeiro se transforma em um mangue calmo, escuro e salobro. A cerimônia não contou com espectadores humanos, apenas caranguejos, paratis e pequenos robalos, que assistiram em silêncio o nascimento do Cristo. Deu-se na aurora das seis da manhã, quando o céu tinge o espelho d’água com rosas e azuis. Hora de maré correndo e vida acordando. Mais ao fundo, cantam duas saracuras embrenhadas no mato, correndo ligeiras e anunciando a boa nova. Já a pomba, alva como uma suindara branca, coroava no ar a fauna desse berçário marinho, tão fértil e abundante.
João, o batista, está queimado pelo sol da costeira e em sua mão traz uma concha qualquer encontrada no areal da praia, concha que agora verte a água sobre o filho de Deus. Cobre-se apenas com o couro de algum animal selvagem que ele mesmo abateu: uma onça, uma anta ou um cachorro-do-mato, imolado na floresta mais acima. A tiracolo, carrega uma cabaça cheia de água, coletada há poucos metros, em um córrego afluente. Já sua cruz, parece ser de taquara oca, amarrada apenas com um fino e delicado cipó.
Mais velhos, já com uns trinta anos, sobem para o casebre de taipa após o rito batismal e se sentam ao redor de um fogão à lenha que eles mesmos barrearam com tabatinga. Sobre a chapa de ferro quente, passam um café preto e tostam a ova de uma tainha fresca recém pescada. Comem também um punhado de mandioca cozida na fogueira, que um dia a mãe do João acendeu e nunca mais apagou.
Bruno Brito
24 de Junho de 2026
Batismo de Jesus, 1895Óleo sobre tela - 240 x 180 cm
Acervo da Pinacoteca de São Paulo
Almeida Júnior