O Tiê-sangue e o Mar
Ficarei sem saber, ao certo, que pássaro pousou em minha frente naquela pequena ilha do atlântico sul. Por alguns segundos, sua cor se apresentou tímida diante de mim. Em meio a galhada e os estrepes de um arbusto qualquer, seu tom terroso saltou do emaranhando verde.
Apesar da cor barro fresco, como a de um sabiá-laranjeira saturado, vi na pequena ave o temperamento de um tiê-sangue. Arisco e fugaz, se destacava em meio a relva inerte. Não mais vermelho como dantes, aquele sangue-de-boi aparentava ter perdido trinta e cinco porcento de sua opacidade.
Naquele arquipélago labiríntico, seu título rubro-negro já não possuía mais valor. Talvez a travessia oceânica - do continente para a ilha - tenha o feito esmaecer demasiado. Suas asas modestas e seu pulmão miúdo aparentam não ter dado conta das milhas sobre o oceano azul. O cansaço deve tê-lo feito cair em rasantes na água do mar.
Fiel à carne das goiabeiras, araçás e cambucis, pelejou naquela salmoura sem começo nem fim. Ao conhecer o inferno salino da baía, entendeu os motivos pelos quais os robalos entram e saem do mangue agridoce ao longo da vida. Voando baixo, a antiga mancha vermelha que só venerava seus próprios tons, reconheceu a beleza metálica das cavalas e das sororocas, nadando ágeis sobre as lages e os parcéis.
Despiu-se, enfim, de sua penugem monárquica - veludo cardeal - para então viver em meio as conchas, as rochas e os grãos de ossada marinha. Hoje, nessa paragem aquática e mineral, seu coração e suas artérias deverão se acostumar com seiva salgada das restingas.
Bruno Brito
28.02.24
Ficarei sem saber, ao certo, que pássaro pousou em minha frente naquela pequena ilha do atlântico sul. Por alguns segundos, sua cor se apresentou tímida diante de mim. Em meio a galhada e os estrepes de um arbusto qualquer, seu tom terroso saltou do emaranhando verde.
Apesar da cor barro fresco, como a de um sabiá-laranjeira saturado, vi na pequena ave o temperamento de um tiê-sangue. Arisco e fugaz, se destacava em meio a relva inerte. Não mais vermelho como dantes, aquele sangue-de-boi aparentava ter perdido trinta e cinco porcento de sua opacidade.
Naquele arquipélago labiríntico, seu título rubro-negro já não possuía mais valor. Talvez a travessia oceânica - do continente para a ilha - tenha o feito esmaecer demasiado. Suas asas modestas e seu pulmão miúdo aparentam não ter dado conta das milhas sobre o oceano azul. O cansaço deve tê-lo feito cair em rasantes na água do mar.
Fiel à carne das goiabeiras, araçás e cambucis, pelejou naquela salmoura sem começo nem fim. Ao conhecer o inferno salino da baía, entendeu os motivos pelos quais os robalos entram e saem do mangue agridoce ao longo da vida. Voando baixo, a antiga mancha vermelha que só venerava seus próprios tons, reconheceu a beleza metálica das cavalas e das sororocas, nadando ágeis sobre as lages e os parcéis.
Despiu-se, enfim, de sua penugem monárquica - veludo cardeal - para então viver em meio as conchas, as rochas e os grãos de ossada marinha. Hoje, nessa paragem aquática e mineral, seu coração e suas artérias deverão se acostumar com seiva salgada das restingas.
Bruno Brito
28.02.24