Sol Parado, 2022.
Maria Manuela Restivo & Bruno Brito


Esta exposição é o resultado de um conjunto de coincidências felizes: o Bruno vinha à Itália apresentar alguns dos trabalhos que desenvolve no projeto Arado, tendo manifestado a vontade de fazer um périplo por Portugal; essa viagem iria acontecer em época de Santos Populares, uma das várias temáticas que Bruno tem explorado no seu trabalho artístico. Mas a coincidência maior foi mesmo descobrir que, do outro lado do Atlântico, alguém desenvolvia um projeto em torno do imaginário e da visualidade rural, precisamente uma das premissas que estiveram na base da criação do Estúdio do Alhures. Um diálogo encetado online, iniciado no instagram – e aqui teremos que constatar as vantagens de uma sociedade globalmente conectada – revelou ainda que 2018 foi a data de emergência quer do alhures quer do arado, e que os nossos interesses de pesquisa se sobrepunham, estendendo-se pelo amplo território das culturas rurais e tradicionais, dos objetos aos saberes, das técnicas à alimentação. Apesar das diferenças dos nossos percursos profissionais – eu sou investigadora e o Bruno é artista – o mundo rural constitui-se como um universo central para ambos, não com o objetivo de voltar a um passado pré-industrial (fantasia primitivista e ingénua de alguns “puristas”), mas de entender a ruralidade enquanto um conjunto de elementos culturais particularmente férteis, pertinentes e relevantes, passíveis, em alguns casos, de serem transpostos para a contemporaneidade. Concebemos então a ruralidade como uma cosmovisão, uma forma concreta de olhar o mundo e dele fazer sentido. É certo que há, como escrevi já noutro contexto, um certo fascínio urbanita e romantizado pelo universo rural, que se desenvolve entre aqueles que, como nós, não o vivenciaram na sua integralidade: do trabalho agrícola extenuante à dependência da terra e a consequente incerteza das colheitas. Mas também é certo que nos cabe a nós, primeiras gerações que não vivenciaram o quotidiano rural – desenrolado em torno do trabalho agrícola – refletir sobre as possibilidades de encarar este património precioso, e perceber de que forma ele pode ser ativado, apropriado e ressignificado.

Quando reunimos para pensar esta exposição, o Bruno falou-me desta magnífica expressão: formas sem dono. Antes de haver uma conceção de arte, de design, de autoria, de ego, já havia formas. Formas que se definem pela sua intemporalidade e transculturalidade, que atravessam fronteiras e se redefinem continuamente. É precisamente essa reinvenção das formas sem dono, ou das formas vernaculares, que Bruno propõe nesta exposição, focando-se concretamente em duas dessas formas: os arcos e os mastros. Os arcos, explorados através do desenho, remetem simbolicamente para a ideia de passagem, de transposição.

A composição parcimoniosa e a paleta de cores utilizada nestes desenhos evocam alguns dos nomes do modernismo brasileiro (como Alfredo Volpi) que mais se aproximaram de uma certa estética popular. Os mastros, por sua vez, apresentam, como o próprio reconhece, claras referências a Brancusi, mas o seu sentido deve ser procurado nessa fusão particularmente fecunda de influências pagãs e cristãs: símbolo de verticalidade e força, constituía frequentemente, dentro das sociedades pagãs, um elemento de diálogo entre o céu e a terra, presente por exemplo nas diversas representações da árvore da vida, transversal em tantas tradições culturais.

No Brasil, os mastros são erguidos precisamente nesta altura, época de Santos Populares – daí a designação de mastros juninos – cujas celebrações mantêm, não por acaso, tantas referências pré-cristãs, como as fogueiras, os balões e as queimadas. Esta altura do ano era então, nas sociedades rurais, uma época de transformação e transição, iniciada precisamente no solstício, o dia e a noite mais longos do ano: renovavam-se as colheitas e agradecia-se pelos alimentos concedidos, fazendo-se novas preces de abundância e fertilidade. E também agora se fazem pedidos aos santos mais queridos de Portugal e do Brasil: sorte, saúde, dinheiro, amor, casamento, bom tempo, é surpreendente a panóplia de pedidos a que Santo António, São João e São Pedro têm que atender.

Mas os arcos e mastros são também elementos arquitetónicos basilares e elementares em diversas tradições culturais. Eles são, na feliz evocação que Bruno faz de Marcel Mauss, formas eficazes, e por isso se têm mantido ao longo do tempo e do espaço. E é precisamente esta convocação da técnica e do saber-fazer artesanal que singulariza a obra de Bruno. Na contra-corrente de muita da produção artística contemporânea, não lhe interessa a incessante procura da novidade e da obra única, abraçando o processo de repetição característico do labor manual. Assim, os seus arcos e mastros têm vindo a ser continuamente produzidos para serem reativados em diálogo com diferentes espaços e contextos.

Podemos dizer que Bruno, a par de outras pessoas que se têm dedicado aos saberes tradicionais, funciona como um agente transmissor, pesquisando e recolhendo elementos de uma ruralidade em vias de extinção para, através de um processo de bricolagem, reativar os seus sentidos na contemporaneidade.

Maria Manuela Restivo

* * *

Muitas são as formas e os gestos que não possuem um autor ou, ao menos, local de origem precisa. Formas estas que determinam nosso modo de ser e estar no mundo e na comunidade em que vivemos. Nelson Felix, um artista brasileiro, as chama de "formas que não têm dono". Seria difícil, por exemplo, tentar identificar no decorrer da história o primeiro indivíduo a acender uma fogueira, construir um telhado triangular ou mesmo escavar uma embarcação em madeira.

Tais formas, anônimas e atemporais, atravessaram os anos e não respeitaram as fronteiras sócio-políticas da humanidade. Cruzaram rios, montanhas, vales, oceanos e hemisférios. Arcos, círculos, mastros, colunas, roscas e praças quadradas são alguns exemplos de padrões que ainda se repetem em nosso cotidiano, seja ele rural ou urbano. Construir um arco de pedra é como rememorar a primitiva imagem da entrada de uma caverna, primeira morada humana. Passagem pela qual se adentra o abrigo e por onde se vê o mundo iluminado lá fora.
Talvez a dicotomia entre o campo e a cidade nem faça sentido neste contexto das formas órfãs aqui tratadas. Os saberes e os fazeres do rural estão intimamente contidos no ambiente urbano, seja na esfera da alimentação, da construção civil, no mobiliário doméstico, nos festejos ou na maneira que nos relacionarmos com o meio:

"A casa. Com a árvore e o sol, o primeiro e o mais frequente desenho das crianças. É onde ficam a mesa, a cama e o fogão. As paredes externas e o teto nos resguardam, para que não nos dissolvamos na vastidão da Terra; e as paredes internas, ao passo que facultam o isolamento, estabelecem ritos, definidas relações entre lugar e ato demarcando a sala para as refeições e evitando que engendremos os filhos sobre a toalha do almoço. Através das portas, temos acesso ao resto do Universo e dele regressamos, através das janelas, o contemplamos". (Osman Lins, 1994)

No Brasil, por exemplo, o festejo joanino é celebrado no Solstício de Inverno, momento em que o Sol pára no céu e temos o maior dia no hemisfério norte e a maior noite no hemisfério Sul. Portanto, acender a fogueira de São João é como trazer o próprio astro-rei para o centro de nosso quintal nos dias frios. Como assinala Alceu Maynard, pulamos o fogo como faziam os antigos celtas, e assim revivemos os ritos da chamada "arqueocivilização".

Quando olhamos para os materiais da arquitetura ao redor do mundo, notamos que são poucos os materiais empregados em tais feitos. Pedra, madeira e terra: fica evidente que a paisagem determina a escolha da técnica. Disponibilidade de materiais e conforto térmico parecem ser as duas maiores diretrizes que norteiam as construções. Aliás, é interessante notar a própria estrutura da palavra "arquitetura", que provém de outras duas antigas palavras: "arkhon" que significa "chefe", "líder" e "tekton" que significa "fazer". Ou seja, "o mestre do fazer". Alguns estudos apontam para a possibilidade do vocábulo fazer menção ao "carpinteiro chefe", criando assim, uma relação direta com o ofício da madeira. De qualquer modo, se trata daquele que detém o saber e, simultaneamente, o fazer.

Toda forma criada ou construída, independentemente do material empregado, requer o uso da técnica. De modo análogo, toda técnica está ligada a uma tradição – obrigatoriamente – como defende Marcel Mauss:

Chamo técnica um ato tradicional eficaz (e vejam que nisso não difere do ato mágico, religioso, simbólico). Ele precisa ser tradicional e eficaz. Não há técnica e não há transmissão se não houver tradição. Um ato tradicional eficaz.

Assim Mauss define o conceito de "técnica". E é este o único motivo para a perpetuação das formas ao nosso redor: elas funcionam no plano físico, simbólico e porque não no espiritual.

- Assim faziam os antigos!

É uma resposta recorrente nas comunidades tradicionais brasileiras, quando questionados sobre alguma prática ou tradição ainda corrente no cotidiano. Talvez por isso os mastros e totens tenham atravessado o Atlântico e ganhado força nos festejos caipiras do Vale do Paraíba, minha terra natal. Eles são eficazes e, de alguma forma, cumprem um papel simbólico. Mastros estes que também aparecem nas esculturas de Constantin Brancusi, o carpinteiro romeno que levou consigo seu saber-fazer para Paris. Basta olhar as varandas, alpendres e festas rurais da Romênia para entender essa produção tridimensional que revolucionou a escultura moderna no século XX.

Em meu trabalho ocorre algo similar. As antigas formas anônimas dos mastros e dos arcos surgem em meu vocabulário visual e são ressignificadas para ocupar o espaço expositivo. Livres de uma abordagem religiosa, mas dotados de uma aura enigmática, minha produção busca apontar para um ambiente solene e silencioso. As esculturas são como convites para olhar o vazio ao redor, norteando nossos olhos em direção ao firmamento. Se os mastros apontam para o alto, já os arcos são como janelas para diversos céus, pintados com cores incertas, esmaecidas e cambiantes.

Bruno Brito