Talismã

Acordo cedinho e abro a cortina lentamente para não espantar uma saracura que eu intuo estar do lado de fora. Ela fica imóvel, pois sabe que estou mirando-a pela fresta da janela. Seu olho vermelho acende em meio ao dia ainda rosa. Um manacá reflete em meu semblante os primeiros raios do Sol, que está subindo ao longe, perto da linha do mar. A poucos metros, ouço o rio murmurar ao fundo, sempre ali, nunca o mesmo. Já no papel, um gesto, outro gesto, surge um rosto. Brota na folha branca como uma pequena planta em meio à serrapilheira. Uma palmeira, uma menina: Juçara. Com a cabeça levemente inclinada, seu olho me mira e, logo, me dá a mão. Consigo sentir seu sorriso sereno bem no meio do meu peito. Acende em mim uma pequena centelha: um talismã.

Munido desse artefato invisível, acordo nos demais dias e procuro por essas outras pessoas nascidas da terra. Aparecem, então: Irineu, Bernadete, Moacir, Carlota e Alfredo. São eles os rostos que surgem a mim, após algumas camadas de têmpera guache rala e translúcida. Uma tinta escolar comum, daquela que se vendia no bazar dos meus pais, na mercearia do bairro ou nas lojinhas da cidade. Impressionante lembrar como as cores primárias, acrescidas de preto e branco, fazem surgir uma porção infinita de novas cores.

Não poderia imaginar que um dia voltaria a pintar com a mesma tinta dos meus primeiros anos escolares em Jacareí, quando tínhamos que copiar as imagens da Tarsila, Miró, Mondrian, Volpi, Kandinsky e dos demais nomes da história da arte. Talvez por isso eu tenha optado por este verde escuro nas paredes, que só depois de cobertas me revelaram as lousas de giz daquela antiga escola. Talvez por isso, também, eu tenha nomeado os retratos de “estudos”, afinal, precisei revisitar o despretensioso gesto infantil para, então, aceitar que não importa o suporte, o material ou a ocasião: a arte - em suas mais variadas formas - emerge do nosso íntimo porque ela precisa e não porque assim queremos. Somos, então, apenas veículos que trazem à tona as imagens para o mundo físico, já que elas existem de fato num outro plano mais sutil, que muitas vezes só acessamos parcialmente enquanto sonhamos.

Desse modo, penso que essa pequena mostra é, sim, um exercício plástico e narrativo, mas, sobretudo, um exercício de reconciliação com o próprio fazer artístico, seja na forma de pintura, escultura, desenho, literatura ou demais formas de expressão. É, portanto, uma busca por entender a arte como um recurso vital propriamente dito e inerente a nós, como comer ou dormir. O talismã, que também os convido a carregar consigo, é apenas um lembrete diário de que o corpo precisa mover, a cabeça pensar, o coração sentir e a mão fazer.


Bruno Brito
Paraty, Inverno de 2026.

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Texto escrito para exposição homônima, realizada em Julho de 2026.