Bruno Brito


Abaixo, uma série de textos de minha autoria produzidos a partir de 2016. São pequenos ensaios e aforismos sobre temas diversos, principalmente ligados a elementos da cultura popular brasileira.


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Casa & Café


Em cada casa o café tem um cheiro. Mas não é o café, é a casa. Um mesmo pó de café, assume outro cheiro em outra casa. Suspeitava dos produtos de limpeza, que podiam interferir na apreciação, mas não, é a casa. Percebi que o café, ao ser coado, revela o espaço vazio da casa. Ele denuncia a própria volumetria da construção e ativa um campo imaterial (na casa e na memória). Ao entrar num recinto com café sendo coado temos, simultaneamente, uma apreciação olfativa e espacial. Nasce um sexto sentido, ainda sem nome. Não à toa, ambas palavras tem quatro letras e duas sílabas: ca-fé / ca-sa — deveriam ser sinônimas. Um café coado tem mais de arquitetura do que de culinária.


3 de Junho de 2016


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Guapuruvu


Por ter nascido na constelação de guapuruvu meu ascendente é em tainhas, estas que sobem do sul quando a água começa a gelar. Vim quando a lua estava a pino sobre a sua copa amarela. No frio do inverno, procurando um esteio reto na neblina branca. No meio da várzea, uma serra pra cada lado, a canoa brotava do chão. Despontava na capoeira rala ao lado de embaúbas finas. O vejo no dossel da mata e reconheço o signo. Cai do alto um saquinho de papel de seda em formato de lágrima, envolvendo sua semente em forma de ficha. Hóstia dos bichos que fuçam as folhas. Vigilante diurno. Dorme quando chega a noite. Cresce um palmo durante o dia. Guapuruvu.

24 de Maio de 2018


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Sanhaço


Há um descompasso no vôo do Sanhaço. Sua trajetória é repleta de ruídos e mudanças bruscas. Como num desenho feito a olho cego. Uma rota subjetiva que tende à mudança, ajuste, curva acentuada, quebra obtusa. Sua coluna pequena se adapta como nosso olho reage a luz. Característica que se repete em sua cor. Um azul que tende ao cinza. Um cinza que tende ao azul. Incerto, esmaecido. Problemático para um observador daltônico (que o reconhecerá pelo vôo, apenas). Uma cor bastarda que nasce ao esbarrar pincel. De pouco pigmento, economizada, rala. Azul antigo, céu de afresco, fachada de casa simples. Pássaro nostálgico, não lembrado, de canto impronunciável. Sanhaço.

10 de Abril de 2016


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Banana Nanica


Das bananas que dão por aqui, a nanica é a mais querida. E não é por conta do preço, mas por suas propriedades organolépticas e simbólicas, começando por seu nome, que já supera as demais:

-maçã — fruta que lembra outra; falta de personalidade; aveludada, indecisa.
-prata — tem uma dureza semântica-metálica que afasta; quando verde, amarra.
-ouro — pretensão áurea para uma fruta ordinária; ambiciosa, calórica.
-da-terra — soa sair do solo e ter gosto do mesmo; dureza de torrão, necessita fogo.

O arranjo silábico da palavra “nanica” possui uma sonoridade que agrada na fala e na escuta: na-ni-ca. As três sílabas criam um ritmo similar ao de ba-na-na, por isso é a mais genuína e próxima da ideia de banana.

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Mesmo esverdeada, seu gosto já tende ao doce. A nuance é sutil, porém, um olho calibrado reconhece no exterior da fruta o sabor interno. Atinge a perfeição quando amarelada e com poucas pintas pretas. Finaliza seu processo de maturação com a casca já pretejada, quando o açúcar atinge o pico. Sua polpa amolecida queima ligeiramente a ponta da língua com uma acidez adocicada.

Por fim, a nanica é despretensiosa. Mesmo atingindo grandes proporções, ultrapassando às vezes mais de um palmo, não abre mão do adjetivo que apequena, com exceção do “nanicão”, nomenclatura ambígua utilizada pelos produtores rurais. Pedir uma penca de nanica é como chamar por um nome feminino no diminutivo, hábito comum no Brasil: terezinha, cidinha, chiquinha. Cria-se um vínculo familiar com o enunciado da fruta, tornando-a mais próxima e cativa.

22 de Fevereiro de 2017


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Nota Sobre o Limão


O que mais impressiona no limão não é sua acidez, mas sua oleosidade.


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Coentro & Salsinha


Coentro e Salsinha é como Matisse e Picasso.
Coentro está para Matisse, como Salsinha está para Picasso.

27 de Junho de 2017


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Funeral em Rede


Antigamente o transporte dos defuntos da zona rural era feito em rede. E eram redes comunitárias que ficavam guardadas na casa do “quarteirão”, uma espécie de inspetor ou líder do bairro. Escolhia-se o bambu com muito cuidado, atentando-se para não ter furinhos de pica-pau, evitando assim, a queda do defunto no meio do caminho, pois isso é mau-agouro na certa para quem o carrega. Devido as longas distâncias, faziam revezamento para aliviar o “fardo”. Nota-se no desenho que cada um dos homens leva o bambu em um lado do ombro, fazendo com que o morto balançasse menos, afinal não se deve atrapalhar o sono eterno do coitado em questão. O transporte era feito a pé até o cemitério da cidade, podendo levar horas dependendo da “carga”. Ao final do enterro, a rede tornava pra casa do quarteirão e aguardava a próxima empreitada, anunciada pelo canto da coruja-branca no terreiro de um enfermo ou azarado.


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Jilós, Burros e Pintassilgos


Dia desses, enquanto almoçava, divaguei sobre o jiló. Se o Brasil é dividido entre pessoas que preferem coentro ou salsinha, com o jiló a porcentagem parece ser diferente. Chutando alto, talvez apenas 25% da população aprecia esse fruto amargo, que geralmente é consumido refogado no almoço. Confesso que nunca fui um fã assíduo desta iguaria, e de um tempo pra cá venho tentando inseri-la na alimentação com mais naturalidade, aliás, só agora estou passando a entender esse ingrediente e a apreciá-lo com o devido respeito.

Durante a dita refeição, repeti mentalmente a palavra jiló: “ji-ló, ji-ló, ji-ló, ji-ló…” e instantaneamente me veio a maneira que nós, humanos, imitamos o burro: “ih-hó, ih-hó, ih-hó…”. Ora! Que coincidência infeliz assimilar o enunciado de um alimento com o relincho desafinado de um animal quadrúpede, que por sua vez é tido como uma “subespécie”, já que é fruto do cruzamento entre o jumento e a égua.

Burro e mula são a mesma coisa, macho e fêmea, respectivamente. São animais tidos como teimosos e inferiores, pelo menos para os citadinos, já que nas zonas rurais são crias fundamentais na lida do campo pela sua força física e pelo equilíbrio em terrenos íngremes. Aliás, foi em “lombo de mula” que o Brasil foi conquistado e ocupado. Movimento conhecido por “tropeirismo”, homens e muares ligavam os primeiros povoamentos do país cruzando sertão adentro, seguindo caminhos de índio, que por sua vez eram iniciados por carreiros de bichos em busca de água, como sugere Sérgio Buarque de Holanda em “Caminhos e Fronteiras”… (mas esse parágrafo é só uma justificativa para denunciar essa injustiça com os burros e mulas).

Retomando ao jiló: é a fruta que os criadores de passarinho dão para essas pequenas aves cantoras estimadas em nosso país em geral. Pixarros, canários, pintassilgos, pássaros-pretos e rouxinóis estão na lista dos mais cotados nas gaiolas brasileiras, certamente pelos cantos que carregam.

Que ironia do destino: logo ele, o fruto amargo que lembra o estranho relincho de burro, ser alimento dos pássaros sopranos nacionais! Seria o jiló para o pássaro o que a cachaça é para o cantador caipira: um afinador da voz?

Me parece que ambos queimam e amargam a faringe antes de alegrar os ouvintes presentes. Isso lembra ditados como: “Mar calmo não faz bom marinheiro” ou “Ostra feliz não faz pérola”. É depois de jilós e cachaças que aves e humanos entoam as mais belas cantigas no terreiro das casas brasileiras.

18 de Novembro de 2018


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