Talvez essa seja a foto mais emblemática que fiz nos últimos anos. Registrei a cena em 2020, no Sul de Minas Gerais, num pedaço de Mantiqueira que parece não ter cedido às “trends”, cacoetes e estrangeirismos da contemporaneidade.
Desde então, com frequência, tive vontade de escrever a respeito dela e, assim, torná-la pública aqui. Mas sempre fui tomado por um certo receio da moral alheia, obviamente motivado pelas questões que a imagem pode suscitar. Aliás, são tantos os temas que dariam pra se abordar, passando pela alimentação, economia, religiosidade, ocupação da paisagem ou mesmo arquitetura e cultura material, que mesmo pensando em várias coisas, também pensei em nada.
Acontece que a imagem parece se fechar nela mesma e, de tão explícita, tornou-se inacessível a mim. Não saberia, portanto, elencar uma única vereda para entrar e percorrer. Talvez só a ficção me desse ferramentas para tal empreita, mas optei por deixar maturar mais um pouco, como com os queijos e a carne.
De qualquer forma, me ocorreu uma pergunta: haverá - mesmo - conciliação entre o antigo mundo artesanal e o novíssimo digital? A humanidade está realmente pronta e disposta a viver um futuro dito ancestral ou só estamos cada vez mais distantes de resolver as nossas demandas vitais como comer, morar, beber e educar com as próprias mãos?
Embora incertas, tenho minhas hipóteses, e essa imagem me fez pensar numa verdadeira fenda que se abre diante de nós.
